O problema não é o público — é o que estamos entregando pra ele

Existe uma frase que aparece em praticamente toda roda de conversa sobre hardcore, metal e punk underground: “O público sumiu.” Mas o problema não é o público. Sempre com aquele tom meio dramático, meio resignado,

Written by: Sabe Nada

Published on: abril 7, 2026

Existe uma frase que aparece em praticamente toda roda de conversa sobre hardcore, metal e punk underground: “O público sumiu.” Mas o problema não é o público.

Sempre com aquele tom meio dramático, meio resignado, como se estivéssemos falando de uma espécie em extinção. Mas vamos falar a verdade? O público não sumiu. Ele só ficou mais seletivo.

E honestamente, não dá pra culpá-lo por isso.

O público não morreu — ele só cansou

Se você frequentou shows nos anos 90, 2000 ou até começo dos 2010, provavelmente já ouviu a mesma narrativa de que antes era mais cheio, agora ninguém vai, a cena morreu.

Só que essa história ignora um problema pequeno — mas inconveniente: o público continua existindo. Ele ainda vai em show. Ainda compra disco. Ainda veste camiseta.

Mas agora ele escolhe melhor. E isso incomoda muita gente.

A concorrência por atenção está acirrada

Antes, o público descobria bandas no próprio show, num zine ou numa fita K7, por indicação de um amigo.

Hoje, ele descobre bandas no Spotify, no YouTube, no Bandcamp, no Instagram, no TikTok ou seja, no algoritmo que decide o que você vai ouvir. A indicação do amigo ainda é válida, mas ele só vai indicar, se tiver algo que chame a atenção dele também.

O fato é que, as bandas precisam ter um diferencial forte para chamar a atenção. Ela não precisa ter o melhor equipamento e nem gastar fortunas em tráfego pago, mas ela precisa ter um conceito criativo e uma execução que acompanhe o conceito de forma consistente.

Para exemplificar com uma banda que todo mundo conhece, Ramones. O conceito deles é ser uma banda direta, rápida para os padrões da época, com um visual padronizado dos integrantes que complementava o som. Todos tem o “sobrenome” Ramone. Por mais simples que pareça, mas existe um conceito e uma execução a altura, que chama a atenção do público. A questão é você realmente se esforçar para fazer algo bem pensado, mesmo que ninguém vai ouvir. Mas as chances de mais pessoas se interessarem, é muito maior, se você criar algo que seja minimamente interessante e pensado.

Nem tudo que é underground é automaticamente interessante para o público

Esse talvez seja o ponto mais sensível. Existe uma ideia romântica de que “ser underground já é suficiente”, mas infelizmente (ou felizmente), não é. E nunca foi.

O underground sempre foi sobre identidade, personalidade, energia, risco. Veja que “risco” é um ponto muito importante, exatamente porque a banda underground não tem NADA a perder. Há enormes chances de que ninguém vai ouvir sua banda de qualquer jeito, então porque não se arriscar e fazer algo que você goste, independente de qualquer “regra” ou “padrão”. Dá trabalho? Muito! Mas é extremamente mais gratificante produzir algo do seu jeito, da maneira como imaginou na sua cabeça, do que seguir regrinhas pra tentar se encaixar em algum lugar.

Não é de hoje, mas muitas bandas parecem operar no modo automático..mesmo riff, mesma estética, mesma arte genérica, mesma letra sem grande significado.

Nada contra ser fiel a um estilo de som, eu, particularmente, adoro estilos que se repetem como thrash metal, hardcore, etc. Mas mesmo dentro de um estilo com regras mais “fechadas”, é possível ser criativo, é só usar a imaginação. Principalmente em bandas, onde há sempre pessoas diferentes com idéias diferentes, a chances de sair algo totalmente novo são altíssimas, se todos participarem. Se não tiver muito espaço pra inventar, que seja algo pelo menos genuíno e autêntico.

O público não deve lealdade automática a ninguém

Esse é um conceito que ainda assusta muita gente. Existe uma expectativa implícita de que o público tem obrigação de apoiar a cena. Mas apoio não é caridade. É troca.

Se você entrega algo que emociona, surpreende, representa algo, o público responde. Se entrega algo que parece reciclado, ele percebe e não dá bola, simples assim.

O show precisa ser uma experiência — não só um compromisso

Falando de shows, não basta mais tocar as músicas e esperar que o público apareça. Hoje, sair de casa virou decisão estratégica e econômica, ainda mais em grandes centros:

  • Trânsito
  • Custo
  • Tempo
  • Cansaço
  • Diversas opções de entretenimento disponíveis no celular

Se o show não parece imperdível…Ele vira opcional. E opcional costuma virar, “depois eu vejo.” Ou seja, “não vou.”

A estética importa — mais do que muita gente admite

Isso aqui costuma causar desconforto. Mas vamos falar mesmo assim. Visual importa. Sempre importou. De forma geral, desde o punk dos anos 70 até o hardcore dos 90, passando pelo emo dos anos 2000, estética sempre foi parte da mensagem.

Hoje, muita banda trata identidade visual como detalhe, obrigação e que acaba virando algo feito em 10 minutos no Canva.

Resultado? Tudo parece igual. E quando tudo parece igual…Nada chama atenção.

O público ainda quer acreditar em bandas — mas precisa de motivo

Apesar de toda crítica, tem uma boa notícia:

O público ainda quer acreditar.

Ele quer descobrir banda nova, se apaixonar por um disco, sentir que encontrou algo especial. E isso exige esforço real, não só musical, mas criativo, visual, estratégico.

A prova disso são as bandas que estão conseguindo se destacar, por mais que ainda não tenham a quanto de ouvintes que mereçam, como as listadas aqui: artigo

A solução ao problema não é reclamar — é melhorar

Reclamar do público é fácil, muito fácil. Difícil é olhar pra própria banda e perguntar: “Isso é realmente interessante? Isso é memorável?”. Se a resposta for “não sei”… Talvez não valha a pena.

O público não sumiu — ele evoluiu

Essa talvez seja a frase que resume tudo. O público não ficou preguiçoso,
não ficou desinteressado, não ficou ingrato, ele só ficou mais exigente.

E isso não é um problema, é um convite.

Um convite pra criar melhor, pensar melhor e fazer melhor. Porque no fim das contas o problema não é o público, nunca foi.

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