A cena belga H8000 nos deu bandas fantásticas no fim dos anos 90. Uma das minhas favoritas é o Regression.
Com uma afinação baixa, uma gravação até que boa pra época e uma execução não tão perfeita, que é exatamente o que dá o charme pra banda. Formada por jovens metaleiros inseridos na cena straight edge, o que falta em técnica sobra em vontade e agressividade.
Não tem como não amar.
O contexto da banda

Vindos da prolífica cena de West Flanders, na Bélgica, onde toda a área compartilhava o código postal 8000. Por isso todas as bandas dessa remota região adotaram o nome “H8000” para se referir cena de Hardcore com as bandas dessa área da Bélgica.
Algumas bandas clássicas como Nations On Fire tocavam um hardcore mais tradicional, com letras straight edge e politizadas. Mas aos poucos as bandas começaram a agregar muito mais influência de metal no som, ao mesmo tempo que apareciam essas bandas nos EUA. Só que não era o tradicional crossover, mas realmente metal, death metal, mudança de afinação, vocais guturais. Isso tudo sem mudar as temáticas das letras.
E nesse ambiente, nasce o Regression.Mas falaremos mais do H8000 em outros posts.
How can you be so fucking heartless?

O Regression havia lançado uma demo e depois finalmente em 1996 a GoodLifeRecords lança o seu primeiro e único disco: HEARTLESS
São 6 músicas, em 17 minutos de puro esforço metálico, de garotos tentando soar o mais pesado possível. Sendo que as duas últimas são ao vivo!
As músicas parecem que eles tentaram tocar riffs do Carcass e do Sepultura, só que não sabiam como e acabaram criando algo com a cara deles. O nível de simplicidade e peso são o que mais me cativam. Nada de riffs mirabolantes ou baterias ultra-processadas ou técnicas. O vocal desesperado, passando uma urgência e autenticidade impressionante.
A abertura do disco já mostra quão simples e direto ele vai ser. Riff com duas notas com a afinação baixa e harmônicos simples na ponte. E já abre com uma letra straight edge típica daquele período, onde o sxe era tudo ou nada. “Beacon” fala como o straight edge é o “farol” que o guia e que ele nunca vai desistir disso. Fala também que o “X” agora está em sua mão, mas pra sempre em seu coração.
Na segunda música, “Retaliation”, mostra também como as letras e temáticas dessa época, sempre remetiam a um estado permanente de guerra. Distanciando das letras straight edge positivas dos anos 80. E nessa música já tem um riff rápido que é 100% metal e nada lembra daquele rápido do hardcore, além da simplicidade.
Mas é a música que dá nome ao disco que acho que o Regression teve o seu melhor momento. Com uma levada mid-tempo alternada com breakdowns, você consegue sentir e cantar junto com toda a vontade. Com uma letra com temática vegan, eles conseguem ser agressivos, quase intimando o ouvinte a causa. É a trilha sonora perfeita pra você pegar o espeto do churrasco da família e jogar no lixo. Como você consegue ser tão sem coração, caralho??!!!
Dos menores fracos vem os melhores perfumes
Esse pequeno disco mal foi ouvido mundo afora, se considerarmos o número de pessoas que gostam de som pesado e nunca vão ouví-lo. E mesmo os que ouviram, poucos são capazes de captar todas as nuances que nele estão. E não é culpa delas e nem eu sou mais entededor que ninguém. Creio que quem não viveu esse contexto dificilmente vai entender todos os pormenores. Mas se você gosta de garimpar pequenas jóias escondidas nesse estilo, vale a pena dar uma sacada. Obrigado por ler até aqui, mais uma opinião que ninguém pediu, sobre mais uma banda que ninguém ouve.